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Lojas Cem fatura e lucra com lojas de rua e sem web

Terceira maior rede de artigos eletrônicos tem estratégia incomum

CD Salto/SP – Divulgação

A lojas Cem, terceira maior varejista de eletrônicos do País, tem um modelo único no setor. A rede não vende pela internet, não tem lojas em shopping centers (apenas em ruas e avenidas) ou nos “market places” – sites que reúnem lojas virtuais de diferentes varejistas. Mesmo assim, há quase uma década, a receita anual sobe 12,5% em média, calcula o Valor Data com base em balanços do grupo. No ano passado, porém a venda da Lojas Cem praticamente não evoluiu.

A receita líquida subiu 0,74% em 2018, para R$ 4,1 bilhões, segundo demonstrativo anual publicado semana passada – acima da média do setor, mas abaixo de seus padrões. Isso indica que as vendas de lojas com mais um ano de operação (chamadas “mesmas lojas”) podem ter encolhido. Normalmente, lojas maduras crescem menos que a média da empresa.

É um desempenho incomum para a companhia, mas ao mesmo tempo. A rede nunca lucrou tanto. O resultado líquido foi de quase R$ 400 milhões, alta de 15% sobre 2017, maior valor de sua história. Lucrou mais que grandes varejistas, como Lojas Americanas, e no setor, só perdeu para Magazine Luiza. A margem líquida, calculada pelo Valor Data, atingiu 9,5%, maior índice desde 2014, início da recente crise no consumo.

Entre as razões para o desempenho está a decisão de parar de vender linhas de certos fornecedores após negociações que não garantiram uma margem sobre lucro esperada pela loja. O movimento ocorreu no ano passado e se repete neste ano. A empresa, em entrevista na sexta-feira, prefere não mencionar as marcas.

O Valor apurou que as dificuldades na negociação envolvem uma grande fabricante estrangeira de televisores e uma das maiores indústria de refrigeradores do País. A decisão é sempre sensível e, normalmente, tem reflexos em cadeia no mercado.

“Paramos com um (fornecedor) grande no ano passado e estamos a ponto de parar com outro. Se ele não tem uma condição boa, que nos garanta retorno, nós tiramos o produto de linha”, disse José Domingos Alves, supervisor geral da companhia, controlada pela família Vecchia. Em 2016, período de recessão e um dos piores anos em vendas e rentabilidade da empresa, a margem líquida foi de 7,5%. Em 2017, alcançou 8,4%, e no ano passado, 9,5%.

“Normalmente você define um patamar de preço e ganha um pouco a mais no fim da negociação. Com eles, de um ano para cá, isso ficou mais difícil. Se a rede reduz linhas, nem sempre o cliente leva o que tem na loja e a venda pode desacelerar”, diz um diretor de uma fabricante de portáteis, que fornece regularmente à Lojas Cem.

Para ocupar o espaço deixado, a Lojas Cem disse que vem buscando reforçar as ações de linhas concorrentes. “Treinamos o vendedor, para que ele mostre ao cliente que há outras boas escolhas de produtos no mercado”, diz Alves. “A gente vendeu menos e em tudo há algum sacrifício. O que os números mostram é que temos um modelo sustentável”.

Alves diz não acreditar que a desaceleração na receita seja reflexo do fato de a cadeia não vender no on-line, o que a impede de ter um sistema multicanal, com serviços como venda no site e retirada na loja. São 270 pontos no País, e 10 a 12 aberturas ao ano, em média.

“Quase ninguém faz dinheiro na internet. É uma operação tributária complexa, com custos logísticos altos. Eles vendem, mas com prejuízo. O que acontece é que foi um ano mais difícil para todo mundo”, diz. Segundo o IBGE, o varejo de móveis e eletrônicos encolheu 2% em receita em 2018.

No resultado líquido, a Lojas Cem lucrou mais, em parte por causa de seu braço financeiro. Esse ganho cresceu num ritmo maior do que a receita operacional em 2018. De forma geral, quem vende muito no varejo, ganha escala, dilui custos e lucra mais. No entanto, como a Lojas Cem vendeu quase o mesmo de 2017, e as despesas administrativas e com vendas subiram 6,5%, o braço financeiro foi fundamente para isso.

A receita financeira avançou 21%, para R$ 215 milhões, um recorde na rede. Como é uma das poucas cadeias de grande porte que não se desfez do controle de sua financeira nos últimos anos, a empresa traz todo esse ganho para o próprio resultado. Além disso, ainda houve uma perda menor com contas em atraso.

A provisão para devedores duvidosos caiu 11% em 2018, para R$ 185 milhões. “Ficamos mais criteriosos na concessão de crédito e mantemos essa política neste ano, o que também nos ajudou”, afirma Alves. Nos próximos meses, a empresa deve abrir seu segundo centro de distribuição em Salto (SP), sede da empresa, com investimentos de R$ 150 milhões. A empresa encerrou 2018 com caixa de R$ 40 milhões. Para a obra, parte dos recursos virão do caixa de uma empresa imobiliária da família. Com lojas em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná, a empresa é comandada por três irmãos, filhos do fundador Remígio Dalla Vecchia.

Fonte: Valor Econômico

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