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Holding que controla Casino pede proteção contra credores

A holding Rallye, que controla o Casino, dono do Grupo Pão de Açúcar (GPA) e, indiretamente, da Via Varejo, obteve ontem na Justiça francesa a aprovação de um plano de proteção contra credores

O empresário JeanCharles Naouri, presidente do grupo varejista francês Casino, controlador do Grupo Pão de Açúcar, tomou ontem 23.05, a medida mais extrema desde que busca, há anos, desalavancar seus negócios na França. A Rallye, holding que controla as empresas de Naouri, obteve ontem no Tribunal de Comércio de Paris proteção contra credores por, pelo menos, seis meses, para neste período tentar montar um plano de reestruturação de dívidas com bancos e detentores de títulos.

A empresa pode ganhar tempo já que, com a medida, pelos seis meses de duração da salvaguarda os pagamentos de débitos da Rallye (e outras empresas de Naouri) ficarão suspensos. A depender da situação, uma companhia beneficiada pela proteção pode renovar o período por até 18 meses. A Rallye tem 51% do Casino e dívidas de € 2,9 bilhões (US$ 3,4 bilhões) ao fim de 2018. Já no Casino são outros € 2,7 bilhões (US$ 3 bilhões) em débitos, mas o grupo francês, com 36% do GPA, não é afetado pela salvaguarda.

Considerado um gênio das finanças por amigos mais próximos, Naouri controla atualmente uma estrutura complexa de certas empresas endividadas. Por isso, a proteção judicial atinge também duas subsidiárias da Rallye (Cobivia e HMB) e outras empresas que controlam a Rallye (Fonciere Euris, Finatis e Euris). Parte dos negócios do empresário são de capital fechado, o que impede análise financeira mais detalhada. A estimativa de analistas é que a Rallye, suas subsidiárias e controladoras somem dívida total de cerca de € 3,3 bilhões (US$ 3,7 bilhões, equivalente a R$ 14,8 bilhões).

O tribunal nomeou dois administradores judiciais para o caso: Hélène Bourbouloux e Frédéric Abitbol. Ao comentar a decisão num curto comunicado ao mercado ontem, a empresa menciona supostas ações de especuladores contra a companhia.

“Após persistentes e massivos ataques especulativos contra os ativos do grupo, as empresas sob a proteção temporária irão, no âmbito do presente processo, assegurar a integridade do grupo e melhorar o perfil da dívida, dentro de um ambiente estável”, informa o Casino em nota. A empresa reforça que “estes procedimentos não estão relacionados ao grupo Casino, nem a suas operações ou funcionários e não impactam a execução em andamento de seu plano estratégico”.

Em outubro, Naouri disse em entrevistas que a empresa estava sob “ataque de fundos” posicionados como “vendedores a descoberto” (apostam na desvalorização das ações) e estes, dizia ele, repetiam que as dívidas do grupo eram insustentáveis. Entre os críticos do Casino está a Muddy Waters, do gestor Carson Block.

A decisão sobre a salvaguarda foi anunciada após ter sido suspensa pelas empresas, ontem, a negociação das ações da Rallye e do Casino, na bolsa de Paris. Isso gerou ao longo do dia rumores sobre os passos futuros do Casino. A suspensão ocorreu um dia após a ação de Casino ter atingido, na quarta-feira, a menor cotação do ano, € 29,85. Papéis da Rallye também fecharam na menor cotação da história, a € 7,60.

A queda no preço das ações pode ter efeitos sobre as negociações com bancos credores. As ações do Casino são detidas pela Rallye como garantia aos bancos para que a holding pudesse obter financiamentos. Recentes rebaixamentos de agências de classificação de risco teriam limitado o acesso do Casino ao mercado de títulos, enquanto a Rallye já havia dado ações do Casino como garantia.

Após a suspensão dos papéis na bolsa francesa, as ações de GPA eram a segunda maior queda do Ibovespa, com recuo de até 3%. Após Casino e Rallye confirmarem a salvaguarda, as ações ganharam algum fôlego. Fecharam o pregão em queda de 0,79%, e Via Varejo, controlada por GPA, recuou 2,78% – o Ibovespa caiu menos, 0,48%. O ritmo menor de queda ao fim do pregão foi avaliado como positivo.

“O pedido de salvaguarda a princípio gera apreensão, mas pode indicar que o Casino quer resolver as questões lá fora sem um envolvimento de GPA numa eventual reorganização de ativos. Por um lado, isso pode ser uma sinalização positiva”, diz o analista Gustavo Oliveira, do UBS.

Semanas atrás, o Casino informou, em nota, que analisa “opções estratégicas” para seus ativos na América Latina. Foi uma resposta a uma nota publicada pelo “O Globo“, de que o Casino avalia uma combinação de ativos na região. Isso tem gerado dúvidas entre analistas sobre como o GPA poderia ser afetado numa eventual reestruturação. Em 2015, após uma reorganização societária, cerca de US$ 1,8 bilhão foram transferidos do caixa da controlada colombiana do grupo Éxito para a França.

Desde então, quando questionado sobre o caso, o GPA reforça o compromisso da empresa com as práticas de governança corporativa no país. “A principal preocupação é um movimento similar [ao da Colômbia] no Brasil”, diz Betina Roxo, analista da XP Investimentos. “A retirada de caixa do Éxito reduziu o montante disponível para ser potencialmente distribuído aos minoritários”, informa em relatório.

Fonte: Valor Econômico

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