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Bancos pressionam concorrentes com redução de taxas para lojista

Instituições usam poder financeiro e esquentam disputa no setor de credenciamento

O mercado de credenciamento de cartões entrou em uma nova fase de competição, focada na antecipação de recebíveis gerados com as transações das “maquininhas”. Grandes bancos que têm empresas no setor passaram a usar sua estrutura e balanço para derrubar as taxas dessas operações, num movimento com forte impacto na concorrência. A antecipação de recebíveis, ou pré-pagamento, é uma fonte importante de receita para alguns adquirentes.

A primeira empresa a reduzir as cobranças foi a Getnet, do espanhol Santander, após o banco ter alcançado um nível alto de rentabilidade no país, segundo disse o presidente da credenciadora, Pedro Coutinho, ao Valor, no início do mês. A empresa foi seguida pela Rede, do banco Itaú, e pela SafraPay, do Safra.

O presidente da Rede, Marcos Magalhães, disse no lançamento da iniciativa que ela tinha “potencial para influenciar outros movimentos do setor”. É bem provável que a Cielo, cujos acionistas são o Banco do Brasil e o Bradesco, siga o mesmo caminho. A reportagem apurou que a Global Payments também quer avançar no pré-pagamento. A empresa cancelou entrevista com a reportagem após o anúncio das concorrentes.

Cada uma escolheu um modelo. Getnet e Rede isentaram o cliente da taxa de antecipação das operações de crédito à vista. Elas vão cobrar apenas a taxa de desconto, paga a cada transação. Já o Safra isentou a taxa de desconto no crédito à vista e parcelado, cobrando apenas 2,99% de antecipação, conforme o prazo médio das operações.

As empresas dizem que estão reduzindo as taxas para trazer mais transparência às cobranças e ajudar os clientes a ter fluxo de recursos. Na prática, porém, estão apertando a concorrência na base da pirâmide, dominada por empresas como a PagSeguro, do Grupo UOL e a independente Stone, além das cerca de 200 “subcredenciadoras” espalhadas pelo país.

Um primeiro efeito dessa nova fase da competição já foi sentido pelas empresas do setor, cujo preço em bolsa sofreu um forte ajuste. Na quinta, um dia após o anúncio de isenção da taxa de antecipação de recebível da Rede, as ações da Stone fecharam em queda de 23,69%, para US$ 26,51. Já as ações da PagSeguro tiveram desvalorização de 9,74%, a US$ 25,30, e as da Cielo caíram 7,30%, a R$ 8,25.

“Os bancos não se importam em matar a atividade de credenciamento, reduzindo fortemente as taxas, enquanto ganham com as tarifas de outros serviços que eles oferecem”, diz uma fonte do setor, que preferiu não ser identificada.

Nos últimos anos, as credenciadoras tradicionais perderam participação para as novatas. Agora, elas começam a oferecer produtos aos clientes por meio de contas de pagamentos, o que representa mais concorrência em um negócio muito rentável para as instituições financeiras: os serviços transacionais atrelados a contas correntes.

Os varejistas recebem as compras na modalidade crédito a cada 30 dias, conforme o vencimento das parcelas, tendo em vista que os consumidores pagam as faturas mensalmente. A prática no setor tem sido pagar em dois dias, mediante cobrança de taxa de antecipação que, segundo o Valor apurou, fica em 2,5% por parcela, na média do mercado.

O que as credenciadoras de bancos estão fazendo agora é eliminar essa cobrança principalmente para clientes de menor porte, como pessoas físicas, microempreendedores ou pequenos e médios varejistas. São eles que têm mais demanda por antecipação, uma forma de ter fluxo de caixa e a um custo mais acessível frente a outras modalidades de empréstimo.

O Banco Central discutiu no passado a possibilidade de impor o pagamento aos varejistas em dois dias, mas desistiu de regulamentar a questão. Agora, esse prazo tem se tornado o novo padrão naturalmente. Analistas do Credit Suisse dizem que, no modelo estudado pelo regulador, o capital de giro para financiar a operação ficaria com o banco emissor. Mas o que está acontecendo na prática, com o movimento das credenciadoras ligadas a bancos, é que o custo vai ficar estruturalmente com as adquirentes e seus acionistas.

“Como a ofensiva das credenciadoras ligadas a bancos é grande, pode inclusive reduzir a concorrência”, diz Fabrício Winter, sócio da consultoria Boanerges & Cia, especializada no setor. Na quinta, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) pediu esclarecimentos à Rede e ao Itaú por ver indício de infração de ordem econômica na oferta lançada pelo grupo.

A isenção também provocou reações nos concorrentes. Fontes próximas a empresas do setor veem sinais de “dumping” e de “venda casada” na oferta da Rede, devido à imposição de o cliente ter conta no Itaú para receber o benefício. A Associação Brasileira de Pagamentos (Abipag), que reúne credenciadoras como Stone, FirstData e Global Payments, afirmou que a iniciativa representa um ato para destruir fintechs e inibir a competição ou é propaganda enganosa.

Em nota, a Rede afirmou que a isenção da taxa de antecipação aproxima o mercado brasileiro das práticas internacionais. Para uma fonte, a credenciadora deve justificar, em sua defesa no Cade, que não está praticando dumping porque não terá prejuízo com a oferta, e que a abertura da conta no Itaú não é obrigatória.

A redução das taxas é um golpe para as novas credenciadoras. Análise feita pela Boanerges & Cia mostra que a Stone quase dobrou a receita com antecipação de recebíveis no último ano, para R$ 801,3 milhões, representando metade das receitas da empresa. Já a PagSeguro teve crescimento de 72,7%, para R$ 1,4 bilhão, com a antecipação de recebíveis representando um terço das receitas totais.

Diante da ofensiva das concorrentes, essas empresas têm dito que sua política comercial não se baseia em taxas, mas na prestação de serviços. A Stone diz que sua “precificação é personalizada e o foco não está somente em taxas, mas em toda a proposta de valor oferecida.” A PagSeguro não respondeu à reportagem.

Os mais prejudicados nesse processo, no entanto, são as “subcredenciadoras”, categoria que surgiu para atender os varejistas de menor porte, profissionais liberais, autônomos e pessoas físicas. Elas usam a estrutura das próprias credenciadoras, mediante o pagamento de taxas.

Cerca de 60% da receita das subcredenciadoras vêm do pré-pagamento, uma vez que mais de 90% de sua base adere ao produto. Os preços que elas oferecem, no entanto, são superiores. Isso porque a principal fonte de funding dessas empresas é a própria credenciadora, que cobra pelo risco. As credenciadoras, por sua vez, têm a estrutura de seus acionistas, além do capital levantado em ofertas de ações e emissão de fundos de recebíveis de créditos (Fidcs).

Fabiano Camperlingo, presidente da subcredenciadora alemã SumUp, diz que a queda das taxas impacta a empresa, pois derruba preços no crédito à vista e parcelado, que respondem por dois terços das transações do mercado – o restante é feito no débito à vista. “A redução do custo da antecipação está na nossa agenda. À medida que nosso volume cresce, teremos mais poder de barganha frente à credenciadora.”

Fonte: Valor Econômico

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