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Whirlpool vê venda parada no Brasil

Queda lenta do desemprego ainda trava consumo; mercado deve crescer só 1%

João Carlos Brega


O Brasil ficará na lanterna em termos de crescimento entre os principais mercados de eletrodomésticos na América Latina, numa faixa ao redor de 1%, enquanto México e Argentina devem se expandir num patamar bem superior a este, disse João Carlos Brega, presidente da Whirlpool para a região, dona das marcas Brastemp e Consul. Brega diz que o setor, que inclui itens como refrigerador, microondas e máquina de lavar roupa, ainda “andará de lado” no ano.

“Devemos [como setor] crescer muito pouco, com o mercado andando de lado ainda e nós [empresa] subindo um pouco acima disso”, diz. “Argentina deve ter o melhor desempenho, entre um dígito alto e dois dígitos baixos, e México na faixa de 5%. Brasil fica em um dígito baixo, para não falar zero.” Para ele, a lenta queda no desemprego impede que as vendas “destravem”, pois o segmento é o que mais depende de renda e crédito no mercado de bens duráveis. A compra “espontânea”, diz o executivo, está “parada”. O cliente compra só quando uma necessidade surge, quando o aparelho que já tem quebra, por exemplo.

Por conta desse cenário, Brega já vê outros países “na cola” do Brasil, segundo colocado no ranking de maiores mercados globais da Whirlpool. “Estão mais no nosso calcanhar, com Rússia e Alemanha vindo forte”, disse.

Em 2017, a receita líquida da empresa no país subiu 2,9%, para R$ 9,48 bilhões – nesta semana, a empresa de pesquisas GfK informou que as vendas de linha branca no varejo cresceram 9%. A alta de 2,9% da Whirlpool ocorre em cima de uma base fraca. Houve queda de 1,8% na receita em 2016. Pela importância da subsidiária, o país tem efeito sobre os números globais.

Em teleconferência com analistas no começo do ano, o CEO mundial, Marc Bitzer, foi questionado sobre as razões pelas quais não era possível prever melhora na rentabilidade na América Latina no ano, já que uma série de ações tem sido tomadas. Quando o mercado se refere aos países latinos, a leitura se volta ao Brasil. Se a América Latina corresponde a 16% da receita mundial, o Brasil responde por cerca de 14%, calculou o Valor.

A empresa previu 7% de margem operacional para a região neste ano, mesmo patamar obtido no quarto trimestre do ano passado. Um ano antes, a margem alcançou 8,3%. “Estou curioso em saber por que vocês não esperam uma margem maior dado todo o ajuste de custos, posicionamento de mercado e algum crescimento de volume esperado […]. Talvez você precise um pouco mais de volume no Brasil ou em outro mercado?”, questionou Curtis Nagle, analista do BofA Merrill Lynch.

“Não esperamos uma recuperação significativa na demanda brasileira antes das eleições ou do resultado das eleições. Então, eu diria que certamente não vai piorar, mas não vemos um forte crescimento de um dígito ou dois dígitos no Brasil a curto prazo”, respondeu o CEO mundial. A empresa não informa variação de margens no relatório de resultados no Brasil.

Reajustes de preços impactam positivamente na rentabilidade e, segundo duas varejistas de grande porte ouvidas pelo Valor, a Whirlpool acenou, entre janeiro e fevereiro, com aumentos de preços de até 5% em algumas categorias, como máquina de lavar roupa, cooktop e adegas. A empresa não confirma índices ou itens afetados.

“Nós tivemos lançamentos com melhora no mix de produtos porque investimos e há melhora de preço por causa disso. Há alguns aumentos de preços baseados em custos por conta da inflação muito forte de materiais, pelas oscilações de resina, aço e cobre”, disse Brega.

Questionado se há espaço para aumentos, considerando a recuperação ainda lenta na demanda, ele diz que “é o consumidor que manda”. “Se faz sentido na relação entre custo e benefício, o reajuste vai passar. Não adianta chegar com caixa de isopor e barra de gelo e querer subir preço em 10%. Mas se tiver um produto diferente, que atenda o consumidor, aí vai”. A empresa acelerou lançamentos com Brastemp e Consul após 2016.

Neste ano, estão no foco novos modelos da máquina de bebidas em cápsulas criada em parceria com a Ambev. Versões mais simples serão lançadas no segundo semestre. A fábrica dos equipamentos, hoje em Joinville (SC), deve ser transferida para Manaus.

A companhia ainda registra nível de ociosidade, apesar da redução do índice – nas fábricas, em média, está operando com cerca de 75% da capacidade, e há um ano taxa era de 70%.

Será preciso retomar crescimento em 2019, porque após 2020 crescem os riscos de piora no ambiente econômico, diz Brega. “Para 2019, seja quem for o novo presidente, ele passará por um processo de aprovação e haverá um otimismo. Mas no segundo ano, vai ser isso de ter feito ou não o que prometeu. Será uma outra situação.”

Questionado sobre uma possível ampliação dos investimentos, para se preparar para essa retomada – e considerando o recorde no volume de caixa da empresa, de R$ 1,1 bilhão ao fim de dezembro, o que poderia abrir espaço para maiores desembolsos – Brega diz que já ampliou a renovação de linhas entre 2016 e 2017. E diz que os investimentos são contínuos – em inovação, estão entre 3% e 4% do faturamento anual. O caixa da empresa subiu 54% em 2017, e o lucro líquido cresceu 40%, para R$ 435,8 milhões.

A alta no lucro refletiu melhores resultados financeiros, com queda nas despesas financeiras. No operacional, a receita, com alta de quase 3% em 2017, cresceu menos que as despesas operacionais (alta de 18%), pressionada em grande parte por despesas com vendas, que incluem promoções e comissões.

Aos analistas de mercado, o comando mundial mencionou, no começo do ano, que a operação brasileira se favoreceu “de uma monetização de créditos de impostos” em 2017. Notas explicativas do balanço informam que “a companhia monetizou R$ 135,8 milhões do saldo remanescente do crédito prêmio de Imposto sobre Produtos Industrializados”.

Fonte: Valor Econômico

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