Portal Eletrolar.com

Notícias

Taxa de desconto do lojista cai, mas fatia de emissor aumenta

‘Platinização’, novas bandeiras e parcelado sem juros explicam alta no intercâmbio de cartões

A abertura do setor de cartões atraiu novos competidores e resultou em custos menores para os lojistas que aceitam meios de pagamento eletrônicos. A queda, porém, foi concentrada na remuneração das credenciadoras. A parte que cabe às bandeiras e aos emissores de plásticos – essencialmente os bancos – foi preservada.

A cada compra com cartão de crédito ou débito, as credenciadoras arrecadam o MDR, taxa de desconto cobrada dos lojistas, que varia conforme segmento e porte do estabelecimento. Desde 2010, o MDR médio na função crédito caiu 0,25 ponto percentual, para 2,65%, enquanto no débito a queda foi de 0,13 ponto, para 1,45%, segundo a consultoria Boanerges & Cia.

Essa redução, porém, foi concentrada na fatia do MDR que cabe às credenciadoras, a única em que há negociação de preço com os estabelecimentos. A taxa de desconto é composta por três partes: a remuneração dos responsáveis pelas maquininhas, o intercâmbio pago aos emissores e a comissão da bandeira. As duas últimas são fixas por setor e definidas pelas bandeiras.

A parcela das bandeiras tradicionais (com exceção da Elo) ficou estável nos últimos anos, mas o intercâmbio subiu. Em outras palavras, o bolo (MDR) está menor, mas a fatia direta e indireta dos bancos no total de receita acabou preservada ou aumentando.

Fontes próximas a credenciadoras veem no lançamento da Elo um dos fatores de mudança no mix. Naquele momento, embora fosse uma bandeira entrante, conquistou participação de mercado mesmo com tarifa mais alta que Visa e Mastercard, além de cobrar uma “comissão de marketing” dos estabelecimentos que a utilizam. A Elo é a bandeira hoje de 25,4% dos cartões de débito ativos e de 3,2% dos de crédito, de acordo com os dados do Banco Central (BC).

Na parte da taxa de intercâmbio, um vetor que explica a alta é o movimento que ficou conhecido como “platinização” do mercado. Os cartões de categorias platinum para cima dobraram sua participação nos últimos anos. A tarifa recebida pelos bancos na emissão de um produto premium é superior à de um cartão básico.

Em março, ao concluir que as forças de mercado não estavam funcionando para reduzir os custos, o BC decidiu estipular um teto para o intercâmbio nos pagamentos com cartão de débito. A tarifa média será limitada a 0,5% do valor da transação e a máxima não pode passar de 0,8%. Hoje, a média está em 0,82%. A medida vale a partir de outubro e tem como objetivo incentivar a troca dos pagamentos em espécie por meios eletrônicos.

O órgão regulador ainda não tomou nenhuma medida em relação ao intercâmbio do crédito – considerado mais complexo -, mas sinalizou que espera uma solução de mercado para três questões: reduzir essa tarifa, encurtar o prazo de pagamento aos lojistas e baratear as taxas de juros cobradas do consumidor final.

O medo dos emissores e bandeiras é que o BC decida intervir também neste segmento.

E aí entra em cena mais um elemento que explica a alta do intercâmbio no cartão de crédito: o parcelado sem juros. A tarifa paga aos emissores é mais alta quando uma compra é feita com o parcelamento oferecido pela loja. “Como os bancos correm o risco de crédito, a remuneração é um pouco maior [cerca de 0,3 ponto percentual] que a de uma compra à vista”, diz um executivo de uma instituição financeira. “Mas não é suficiente para cobrir a inadimplência.”

O parcelado sem juros é peça fundamental para entender a indústria de cartões no Brasil. O modelo, que não é praticado em outros países, se equilibra num descasamento entre quem financia a venda (a loja) e quem toma o risco de crédito (o banco).

O lojista financia o consumidor, dividindo a compra em parcelas. O cliente paga uma série de taxas embutidas nas prestações, mas tem a sensação de não pagar juros. Quem paga em uma única vez no cartão assume os mesmos custos, mesmo sem ter o prazo dilatado.

A credenciadora repassa ao estabelecimento o equivalente a uma prestação a cada 30 dias, conforme vai vencendo a fatura do cartão do comprador. Só que, para cobrir o fluxo de caixa, muitos varejistas antecipam seus recebíveis com a fornecedora da maquininha ou seu banco. As transações de cartão no país são liquidadas 30 dias após a venda. As lojas usam essa garantia para se financiar.

Esse modelo, segundo as instituições financeiras, ajuda a explicar por que as taxas de juros do rotativo são tão altas – a média estava em 243% ao ano em maio, segundo o BC. São os bancos, e não as lojas, que assumem o risco de o cliente não pagar a fatura.

Por isso, a Abecs e bancos vêm discutindo um formato de crediário, com um piloto previsto para ser lançado no quarto trimestre. A ideia é que o banco ofereça crédito ao consumidor no ato da compra. As taxas de juros ficarão visíveis na maquininha e ele poderá escolher o número de parcelas. A instituição financeira passará a liquidar essas transações para o lojista em cinco dias, e não mais em 30 – o que reduz a necessidade de crédito do estabelecimento comercial.

O crediário no cartão é uma resposta do setor privado a pedido do BC para que se pensasse em alternativas para reduzir o prazo de liquidação das transações.

Porém, os próprios bancos reconhecem que ele terá de ser uma opção e não um substituto obrigatório do parcelado sem juros. De acordo com a Abecs, as duas modalidades poderão ser usadas conforme a preferência do comprador e as formas de pagamento oferecidas pela loja.

Para Carlos Macedo, analista do Goldman Sachs, o parcelado sem juros foi importante para desenvolver o mercado de cartões, mas carrega uma distorção. “O maior prejudicado é o portador do cartão, que paga taxas maiores do que poderia”, diz.

No entanto, há quem veja a modalidade como reflexo da falta de crédito barato no Brasil. “É o lojista tentando resolver o problema do juro alto na ponta”, observa fonte próxima a uma credenciadora.

Por isso, mexer no parcelado sem juros e na lógica por trás dele é colocar a mão em um vespeiro. A modalidade é considerada muito importante para o varejo: representa pouco mais da metade das vendas com cartões de crédito, e mais do que isso nas vendas com tíquetes maiores.

Em paralelo, a antecipação de recebíveis é uma grande fonte de receitas para as credenciadoras e, em alguns casos, o negócio mais rentável dessas empresas. Diminuir o prazo de pagamento aos lojistas afetará as margens de várias delas especialmente as não bancárias, que não seriam compensadas no crédito ao consumidor. Também representaria um problema para emissores de cartões não ligados a bancos, que pagam mais caro que eles para captar recursos.

Fonte: Valor Econômico

publicidade