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Incerteza eleitoral segura indústria, mas 3º trimestre deve ser positivo

Resultado será impulsionado em parte por efeito estatístico favorável


Com as incertezas eleitorais pesando nas decisões de consumidores e empresários, a indústria brasileira deve continuar com desempenho modesto em setembro e outubro, após um resultado classificado como decepcionante em agosto. Apesar disso, o setor ainda deve fechar o terceiro trimestre do ano com crescimento, graças a um efeito estatístico favorável.

Conforme dados divulgados ontem pelo IBGE, a produção industrial recuou 0,3% de julho para agosto, pela série com ajuste sazonal. O resultado ficou no piso das projeções de analistas consultados pelo Valor Data, que iam de queda de 0,3% a alta de 0,9%. Na média, consultorias e instituições financeiras esperavam alta de 0,4%. O setor acumula agora alta de 2,5% no ano.

Em agosto, o desempenho foi especialmente impactado pelo incêndio que paralisou por 11 dias a Refinaria de Paulínia (Replan), em São Paulo, a maior em capacidade de processamento de petróleo da Petrobras. Sem a interrupção da Replan, a produção teria crescido 0,3%, segundo cálculos da MCM Consultores. Paradas programadas de plataformas de petróleo também pesaram.

Apesar do impacto relevante de eventos isolados no índice de agosto, a abertura da pesquisa do IBGE mostra uma proliferação de taxas negativas no mês. Dos 26 ramos industriais pesquisados pelo órgão, 14 mostraram queda na produção em relação a julho, pela série com ajuste sazonal. A baixa abrangeu ramos tão variadas quanto bebidas (-10,8%), derivados de petróleo (-5,7%) e produtos têxteis (-2,4%).

Para André Macedo, gerente da coordenação de Indústria do IBGE, os números de agosto acendem um “sinal de alerta” sobre a trajetória de recuperação do setor. Ele lembrou que a produção não apresentava dois meses consecutivos de queda, na margem, desde o fim de 2015, quando recuou em novembro (-1,7%) e dezembro (-2,1%).

“Quando havia um mês de queda, isso era de alguma forma compensado no mês seguinte por uma alta. Traz uma sinalização”, disse Macedo, apontando incertezas entre consumidores e empresários para o fraco resultado. “Existe um sinal de alerta sobre o ritmo da produção.”

A baixa da indústria foi limitada pela produção de bens duráveis e pela de bens de capital, que cresceram 1,2% e 5,3%, respectivamente, ante o mês anterior. Os avanços refletem a maior produção de automóveis e caminhões. As linhas de montagem da indústria automobilística produziram 2,4% a mais frente a julho, compensando parte da queda de 3,9% do mês anterior.

Segundo estimativa preliminar da MCM, a produção industrial deve recuar 0,1% em setembro, frente a agosto. Isso representa avanço de apenas 0,5% ante setembro de 2017. Em setembro, o Índice de Confiança Empresarial (ICE) caiu 1,9 ponto frente a agosto, para 89,5 pontos, o menor patamar em um ano, conforme dados divulgados pela FGV.

O banco MUFG também prevê desempenho “relativamente fraco” em setembro e outubro, na esteira da incerteza sobre o resultado eleitoral. “Após as eleições, dependendo do resultado e, em especial, de como a confiança de consumidores e empresários será afetada, poderemos ver crescimento em novembro para atender às vendas de fim de ano”, avaliou o banco, que prevê alta de 2% do setor no ano.

Fabio Ramos, economista do UBS Brasil, acredita que a produção do setor vai crescer 0,4% em setembro na comparação com agosto, resultado que considera tímido, diante da base deprimida da indústria. Se confirmada a projeção, a indústria terá crescido 0,2% desde abril passado. “É uma recuperação praticamente nula”, afirmou Ramos, que culpou o cenário externo e a greve dos caminhoneiros.

Apesar do resultado decepcionante, parte dos analistas relativizou o desempenho de agosto. De acordo com Lucas Souza, economista da Tendências Consultoria, a segunda queda mensal consecutiva da indústria – o que não acontecia há quase três anos – é um movimento ruim para a conjuntura, mas representa pequena correção de rumos após a alta de 12,7% de junho.

“Havia a expectativa de que a produção industrial se mantivesse em níveis mais elevados depois do resultado de junho, mas ainda assim as duas quedas que se seguiram não são robustas”, afirmou o economista da Tendências, para quem “as incertezas elevadas” da eleição se refletem na “queda disseminada dos índices de confiança” e segurando a retomada econômica.

Apesar da previsão de fraco desempenho da indústria em setembro, um efeito estatístico deve jogar a favor do setor no terceiro trimestre. De acordo com o banco Safra, se a produção industrial permanecer em setembro no mesmo patamar que estava em agosto, haverá crescimento de 3,7% em relação ao segundo trimestre.

De acordo com o banco, a herança estatística resulta “da base de comparação bastante deprimida” do segundo trimestre, causada pela greve dos caminhoneiros. Trata-se, é claro, de efeito estatístico, ou seja, sem muita correspondência com o chão da fábrica. “Em linhas gerais, o resultado da produção industrial de agosto decepcionou”, já que o setor “mostra relativa estabilidade em nível deprimido”.

Fonte: Valor Econômico

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