Portal Eletrolar.com

Notícias

Huawei reage à pressão de americanos

Companhia chinesa diz que pode passar a produzir seus próprios componentes se governo dos EUA bloquear acesso a fornecedores

A chinesa Huawei Technologies pode passar a produzir seus próprios componentes de alta tecnologia, como uma medida de defesa, se os Estados Unidos vedarem o acesso da maior fabricante mundial de equipamentos de telecomunicações à tecnologia americana. A informação foi dada pelo fundador e executivo-chefe do grupo, Ren Zhengfei, na sexta-feira18.01, em rara entrevista concedida à mídia japonesa.

Se Washington intensificar suas medidas restritivas contra a empresa a esse ponto, “fabricaremos produtos alternativos por nossa conta. Isso não é do interesse dos EUA”, disse Ren à imprensa nos escritórios da empresa na cidade de Shenzhen, no Sul da China.

Ren estava respondendo a uma pergunta do jornal Nikkei sobre uma proposta dos parlamentares do Congresso americano de limitar a venda de chips e de peças americanas a empresas chinesas – entre as quais a Huawei e a também fabricante de equipamentos de telecomunicações ZTE – que infringirem as sanções ou a legislação de controle das exportações americanas.

“A Huawei não vai ficar como o caso da ZTE”, disse Ren. Uma proibição de natureza tecnológica dos Estados Unidos como a imposta à ZTE afetaria a Huawei, mas “o impacto não seria muito grande”, acrescentou ele.

A Huawei está injetando bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento em um momento no qual fortalece sua própria divisão de chips HiSilicon Technologies a fim de reduzir sua dependência de fornecedores externos, como as fabricantes de chips americanas Intel, Nvidia e Qualcomm. No início do ano, a empresa anunciou um conjunto de chips para servidores de centros de dados destinado a concorrer com produtos da Intel.

A ZTE sofreu uma proibição lesiva de usar tecnologia americana em abril de 2018, ligada a violações que envolviam as sanções impostas pelos EUA ao Irã. Os Estados Unidos suspenderam a proibição em julho.

Ren disse estar “muito surpreso” com a prisão de sua filha no Canadá, Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei, com base em suspeitas de que a empresa estaria negociando com o Irã. Ele se absteve de fazer outros comentários, alegando que a investigação está em curso.

O empresário disse, pela primeira vez, que sua filha não o sucederá como dirigente da empresa. Meng, que foi detida no mês passado sob acusações referentes às sanções dos EUA ao Irã, era encarada como provável futura executiva-chefe do grupo de tecnologia chinês.

“Meu sucessor, definitivamente, não será Meng Wanzhou”, disse Ren. “Meng Wanzhou tem talento em administração e comunicações, enquanto meu sucessor deve vir de uma formação técnica, deve ter profunda compreensão do mercado, ser dotado de pensamento estratégico e ter conhecimento de sociologia e de filosofia.”

“Meu sucessor não será uma única pessoa, e sim um grupo de pessoas”, acrescentou.

Quando perguntado se a Huawei poderia se opor a uma solicitação do governo chinês ou do Partido Comunista Chinês de repassar informações delicadas sobre seus clientes, Ren disse que vai colocar os interesses dos clientes em primeiro lugar.

“Nos últimos 30 anos, nunca tivemos problemas de segurança”, disse ele. “Se nos pedirem para apresentar dados de uma forma que prejudicaria nossos clientes, nos recusaríamos”, enfatizou Ren.

Aos 74 anos de idade, conhecido por seu comportamento recluso nas últimas três décadas, Ren rompeu anos de silêncio e concedeu uma série de entrevistas coletivas à mídia estrangeira e local na sede da Huawei, de segunda a sexta-feira da semana passada, numa campanha publicitária voltada para conquistar aliados em outros países por meio de canais de notícias mundiais.

Ren é ex-engenheiro do Exército de Libertação do Povo e atual membro do Partido Comunista. Ele fundou a Huawei com US$ 3 mil em Shenzhen, no ano de 1987. A empresa evoluiu a partir de uma obscura trading de aparelhos de telecomunicações até se tornar a maior fornecedora mundial de equipamentos de telecomunicações e a segunda maior fabricante mundial de smartphones. A companhia gerou mais de US$ 100 bilhões em 2018.

A Huawei enfrenta pressões cada vez maiores exercidas por vários países. Sua divisão de equipamentos de telecomunicações, especialmente os segmentos voltados à tecnologia móvel 5G, perdeu muitas operadoras fundamentais como clientes nos últimos meses, entre as quais o BT Group britânico e a Orange francesa. EUA, Austrália e Nova Zelândia proíbem o uso da tecnologia de rede da empresa chinesa.

O governo americano investiga a Huawei sobre acusações de que a empresa teria roubado segredos comerciais da provedora americana de serviços para telefones celulares T-Mobile, de acordo com o jornal “The Wall Street Journal”. No Reino Unido, a Universidade de Oxford disse, dias atrás, que deixará de aceitar doações ou recursos para pesquisa da Huawei em meio às crescentes preocupações em torno do risco representado pela empresa chinesa à segurança nacional.

O fundador da Huawei afirmou que a empresa conseguirá sustentar seu crescimento em 2019. “Mas o impulso de crescimento não chegará a 20%”, disse Ren, referindo-se ao percentual alcançado em 2018.

O empresário disse que sua empresa comprou US$ 6,6 bilhões em componentes e peças de empresas japonesas no ano passado. Estimou que as compras totais da Huawei de fornecedores durante o período de 2019 a 2023 vão ultrapassar a cifra de US$ 50 bilhões.

Fonte: Valor Econômico

publicidade