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Foi uma ‘devastação’, mas setor começa a recuperar o que perdeu, diz diretor do Iedi

Segundo estimativa do Iedi, a indústria de bens de capital deve crescer 5% este ano, e a de bens duráveis, 12%

Julio Gomes de Almeida

A indústria, setor duramente atingido pela crise, começa a recuperar o que perdeu, diz o diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Gomes de Almeida. Dados do Iedi apontam que o setor como um todo encolheu 17% na crise; a indústria de bens de capital encolheu 40%; e a de bens de consumo duráveis, 35%. “É uma devastação. Mas a indústria de transformação está melhorando paulatinamente”, diz Almeida, que prevê crescimento de 2% do setor para 2017 e até mais em 2018. A indústria de bens de capital deve crescer 5% este ano, e a de bens duráveis, 12%.

Preocupa mais o economista a situação atual ainda dramática da construção civil, que responde por mais de 5% do PIB e ficou estável no trimestre com ajuste sazonal, mas ainda cai 4,7% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

“A construção é um desastre que se arrasta por 14 trimestres. Eu ousaria dizer que nunca vi coisa tão prolongada e forte”, afirma. O diretor do Iedi defende uma ação específica do governo para o setor, como linhas de crédito para a construção, por exemplo. “A construção gera muito emprego. Não estamos falando de um setor que está em pequena fase turbulenta; está há quatro anos em queda”, diz.

O aumento da demanda interna deve continuar no ano que vem, prevê o economista. “Não é nada para soltar foguete, mas tende a continuar porque é fruto de muito atraso, de uma crise muito forte. E a economia é assim: quando o consumo e o investimento caem muito, eles vão criando a necessidade de voltar a crescer”, diz. “Três, quatro anos é um tempo muito grande para você não consumir um bem mais leve, um eletrodoméstico. É o que está acontecendo hoje.”

Mas, embora a economia tenha mostrado sinais de retomada no terceiro trimestre deste ano, com aumento do consumo e dos investimentos, grande parte desse dinamismo está sendo atendido e absorvido por produtos fabricados fora do país, como indica o forte crescimento das importações (6,6%), diz o economista.

“A máquina da economia voltou a rodar, menos do que se gostaria, mas no consumo e no investimento. O que aparece nos dados são uma antiga fragilidade nossa, que é o baixo investimento de décadas, que agora cobra um preço. Não temos equipamentos importantes e temos que importar”, diz Almeida.

A perda de oportunidade é reflexo da forte queda da taxa de investimento observada no Brasil durante a recessão, diz o economista. A taxa média de investimento, que era de 21,5% nos anos antes da crise entre 2010 e 2013, e caiu até chegar aos atuais 16,1%. “Estamos pagando hoje o preço do baixo investimento no passado”, afirma Almeida que, na contramão da maior parte dos economistas, revisou para baixo – de 1% para 0,5% – a projeção de crescimento econômico para 2017.

Embora também veja boas notícias – em especial a alta do consumo (1,2%) e do investimento (1,6%) sobre o trimestre anterior, após três anos reprimidos pela recessão, ele destaca o fato de que, trimestralmente, a economia está perdendo tração: começou o ano crescendo 1,3% no 1º trimestre, 0,7% no 2º e só 0,1% no terceiro.

“Essa perda de tração não veio por problemas da demanda doméstica; o consumo das famílias e o investimento têm marchado progressivamente para uma área mais positiva”, diz. “É o velho problema que temos de baixa competitividade, e quando temos um sopro de crescimento doméstico isso é apropriado em parcela proporcionalmente muito maior pelo exterior”, diz o economista, destacando que não tem nada contra o aumento da importação, mas sim contra a baixa competitividade brasileira. “Esse dinamismo poderia estar gerando mais emprego, o PIB poderia estar crescendo mais, e não só 0,1%”.

O aumento de 1,6% do investimento no trimestre é uma marca muito expressiva, afirma o economista, que indica que o empresário, após muito tempo parado, volta a tirar projetos da gaveta. “Inicialmente são projetos mais leves; é uma máquina nova, um aperfeiçoamento do seu equipamento. Não é exatamente aquele investimento de uma fábrica nova, coisa que daqui a pouco a gente torce para que venha acontecer”, diz.

“Na recessão, a empresa vai acumulando necessidades de investimento: surge uma máquina nova que, se não atualiza, perde competitividade. Até que chega um momento em que ela coloca na balança se, mesmo em momento muito favorável, vale voltar a investir”.

O diretor do Iedi diz que, em tempos de menos disponibilidade do BNDES, a maior parte dos investimentos dos empresários têm sido financiados, até agora, com capital próprio e por meio do Agência Especial de Financiamento Industrial (Finame).

Contribuiu também para a expansão da formação bruta de capital fixo o aumento da produção de equipamentos de transporte, como caminhões e ônibus, que têm aumentado em 2017.

“Não tem economia que seja competitiva com uma taxa de investimento tão baixa. O empresário tem investido menos, devido à conjuntura econômica, e isso agora faz falta. Agora não temos competitividade para pegar essa demanda interna e traduzir em crescimento doméstico.”

Almeida diz que outro problema é a queda do investimento público, em especial em infraestrutura, com os cortes no PAC, por exemplo. “Nosso ajuste fiscal está muito apoiado no investimento público, em rodovias, transporte, o que também faz falta. Devia estar mais apoiado em outras coisas”, diz, sem especificar quais. O economista afirma que o sucesso dos programas de concessões empreendidos pelo governo seria positivo para a economia, mas ainda está “engatinhando”.

Fonte: Valor Econômico

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