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Desafios em alta dose

“Eletroeletrônicos, equipamentos de informática e de comunicação, bem como os eletrodomésticos, têm o papel de introduzir mudanças profundas na forma como as pessoas vivem e interagem.” Rafael Cagnin

Rafael Cagnin

Indústria e varejo têm desafios pela frente no curto e no longo prazo, entre eles superar efetivamente a crise com a qual a primeira convive há três anos e o segundo, há dois. “No longo prazo, a indústria precisa ter plantas fabris para operar com mais tecnologia e racionalização de custos, bem como incorporar inovações em produtos finais, enquanto o varejo deve acomodar esses produtos no patamar de renda do brasileiro”, diz Rafael Cagnin, economista-chefe do IEDI – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, nesta entrevista à Eletrolar News. A deficiência em infraestrutura, alerta, também bloqueia o avanço das atividades, como a do comércio online, por exemplo, que precisa de uma rede de comunicação e de uma estrutura logística mais ágeis e baratas.

Como o senhor analisa o comportamento do mercado de bens duráveis na crise econômica recente?

Rafael Cagnin – Tanto a produção como o comércio varejista de bens de consumo duráveis foram segmentos dos mais afetados pela crise recente. Em três anos, de 2014 a 2016, a produção industrial nacional de equipamentos de informática e de eletroeletrônicos levou um tombo da ordem de 40%, mais que o dobro do declínio total da indústria acumulado nesse período. O comércio varejista de eletrodomésticos, por sua vez, encolheu 24% no biênio 2015-2016.

Isso em boa medida devido ao perfil desses bens, cuja demanda implica um estado favorável da confiança dos consumidores e exige condições adequadas de financiamento. Esses foram dois pilares do mercado de duráveis profundamente abalados na crise recente.

A confiança se deteriorou muito, inclusive como reflexo das conturbações do quadro político do país, e o crédito desapareceu para muitos tomadores. Vimos uma forte elevação não apenas da taxa básica de juros em 2015, mas sobretudo das taxas de empréstimo, devido à expressiva majoração dos spreads bancários. Essa situação do crédito, inclusive, dificultou muito o refinanciamento das dívidas antigas das famílias, impactando negativamente o consumo. Outro fator fundamental foi a escalada do desemprego, que na verdade afetou o consumo total das famílias.

Passado o pior, como tem sido o desempenho dos mercados de bens duráveis nos últimos dois anos?

RC – Bens de consumo duráveis em geral e eletroeletrônicos chegaram à lona em 2016 e, a partir de 2017, ajudados por bases de comparação muito baixas, saíram na frente na recuperação. Desde 2017, há episódios de fortalecimento da confiança do consumidor, a situação do crédito não é perfeita, mas está menos adversa, e o emprego deu alguns sinais iniciais de recomposição. Ademais, fatores pontuais também ajudam bastante como a liberação dos recursos do FGTS e do PIS/Pasep. Assim, a produção de eletrônicos, segundo o IBGE, cresceu 20% em 2017, e as vendas reais do comércio varejista desses bens, algo como 12%. Foi um bom começo. Porém esses não foram ritmos de recuperação que se mantiveram. O ano de 2018 foi acompanhado de importante arrefecimento, mostrando as limitações do atual processo de recuperação econômica.

Eletroeletrônicos são bens de consumo desejados. Assim, qual é o maior apelo que o varejo tem para a venda desses produtos?

RC – Eletroeletrônicos, inclusive equipamentos de informática e de comunicação, bem como os eletrodomésticos, têm o papel de introduzir mudanças profundas na forma como as pessoas vivem e interagem. O acesso a eles bens significa o acesso a um novo modo de vida. Em outras palavras, há uma dimensão da modernidade que é percebida por meio do uso de bens de consumo duráveis que incorporam os avanços tecnológicos. Pense no tempo que era gasto com tarefas domésticas antes da difusão de certos eletrodomésticos no pós-guerra. Pense na forma como as pessoas se relacionavam antes da popularização dos smartphones e demais eletrônicos cada vez mais integrados entre si. Esse é, sem dúvida, o principal aspecto a ser mobilizado pelas estratégias de marketing e propaganda na criação de mercados para esses bens.

Quais os principais desafios que o setor tem pela frente?

RC – Certamente se recuperar do grande tombo que levou na crise recente. Do lado da produção doméstica desses bens, a esse desafio se adiciona um maior ainda que é acompanhar as mudanças tecnológicas que estão sendo produzidas no mundo. Está em andamento uma nova geração de equipamentos. Não serão apenas os telefones celulares que poderão ser qualificados de smart, mas potencialmente o conjunto de eletroeletrônicos e demais duráveis. Esse movimento deve ser acompanhado por mudanças profundas de modelos de negócio. Como já temos visto, a agregação de valor por meio de serviços associados a esses equipamentos, mais do que por sua produção em si, é uma das tendências.

No curto prazo, o que é essencial para a indústria e o varejo?

RC – Superar efetivamente a crise com a qual a indústria convive há três anos e o varejo, há dois. No longo prazo, a indústria precisa ter plantas fabris para operar com mais tecnologia e racionalização de custos, bem como incorporar inovações em produtos finais, enquanto o varejo deve acomodar esses produtos no patamar de renda do brasileiro. Juros são freios para a ampliação do consumo de bens duráveis no Brasil.

O e-commerce e as novas tecnologias vêm contribuindo para o desenvolvimento do varejo brasileiro?

RC – Cada vez mais, e essa é uma tendência mundial. Nos Estados Unidos, por exemplo, a construção de grandes shopping centers não é mais uma tendência. Ao contrário, avalia-se que nos próximos cinco anos um em cada quatro shoppings poderá ser fechado. O e-commerce faz parte do varejo do futuro. No Brasil, contudo, ainda há obstáculos importantes a serem superados, como a qualidade de nossa infraestrutura. Se conseguíssemos investir o que é necessário em infraestrutura, a experiência de compra seria mais satisfatória para o consumidor pela rapidez e praticidade das plataformas online de vendas, pela agilidade e redução de custo na logística de entrega dos produtos.

Para o Brasil avançar, quais são os pontos mais importantes?

RC – Infraestrutura é um deles, e outro é o ambiente de ciência, tecnologia e inovação. São dois pontos importantes quando se pensa no longo prazo. Nos últimos anos, o Brasil cortou investimentos, andamos na contramão. Outra questão é estabelecer nichos de produção desses bens para que se consiga internacionalizá-los. O setor de eletros é internacionalizado, e seria importante o País avançar mais nisso, conseguir produzir cada vez mais os componentes e exportá-los. É importante ter competitividade.

Qual é sua expectativa para 2019, inclusive em termos de consumo?

RC – Já temos em marcha um movimento de recuperação econômica desde o ano passado. O que ainda lhe falta é maior consistência e maior vitalidade. Há a possibilidade de que 2019 dê passos nessa direção, mas isso dependerá muito das ações do novo governo. Para a próximo ano a esperança é de o País dar alguns passos à frente.

Fonte: Revista Eletrolar News ed. 128

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