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Aquisição cria tele gigante na Europa

Uma fusão gigantesca para criar uma “campeã” europeia está no forno. A Vodafone negocia a compra das redes a cabo da Liberty Global na Alemanha e no Leste Europeu.


O mercado de telecomunicações dos Estados Unidos é dominado por quatro empresas. O da China, por três. Na Europa, no entanto, o mercado é fragmentado e ainda engloba mais de cem empresas locais.

A perspectiva de criar uma operadora gigante tem sido o sonho de executivos, investidores bilionários e até da Comissão Europeia nos últimos 20 anos. Enquanto as maiores operadoras da Europa penam para justificar massivos investimentos para as redes de 5G, empresas chinesas e dos Estados Unidos correm bem à frente.

Agora, uma fusão gigantesca para criar uma “campeã” europeia pode estar no forno. A Vodafone prepara um plano para comprar as redes a cabo da Liberty Global na Alemanha e no Leste Europeu. Caso se concretize, a transação deverá envolver € 16,5 bilhões, incluindo dívidas, o que seria a maior compra no setor telefônico europeu em quase cinco anos.

O negócio está na fase final e pode ser anunciado nas próximas duas semanas, segundo fontes que tiveram conhecimento direto das conversas.

Vodafone e Deutsche Telekom são as duas empresas mais bem posicionadas para erguer uma rede paneuropeia

As ambições da Vodafone, contudo, a confrontam com a Deutsche Telekom, que tem 32% do capital nas mãos do governo alemão e alimenta seus próprios planos para conquistar um papel dominante nas telecomunicações europeias. A empresa mostra-se inflexível no argumento de que o plano de combinação das redes a cabo da Vodafone e Liberty deve ser vetado pelas autoridades alemãs de regulamentação, que já proibiram tentativas anteriores de consolidação do mercado alemão por compradores estrangeiros.

A tensão tornou-se pública em fevereiro, quando o CEO da Deutsche Telekom, Tim Höttges, declarou que lutaria contra a fusão. “É muito improvável que este negócio ganhe aprovação, na minha perspectiva. Considero o negócio inaceitável, do ponto de vista de competição”, disse. “O domínio do mercado de TV, combinado com o de fornecimento de telecomunicações, é algo que pessoalmente vejo como muito traiçoeiro para a democracia.”

Segundo ele, se a Vodafone comprasse a Unitymedia, a unidade de rede a cabo da Liberty, a empresa ganharia demasiado poder sobre o setor de mídia da Alemanha e deixaria os consumidores sem muito poder de escolha.

As declarações foram um sinal de alerta para o CEO da Vodafone, Vittorio Colao, que contrapôs Höttges em jantar para executivos organizado dias depois em uma feira de telecomunicações realizada em Barcelona. “Eu lhe disse que ele havia cometido um grande erro”, comentou o italiano. Depois, Colao criticou seu rival em conferência em março, quando argumentou que era estranho ver o chefe da maior empresa de telecomunicações da Europa reclamando sobre o grau de competição.

“Aqui você tem a Deutsche Telekom, que é a maior empresa de telecomunicações europeia em capitalização de mercado, com o maior número de acessos a residências, no melhor e mais importante mercado europeu. Em qualquer aspecto, é um gigante”, disse. “Usar a expressão ‘obstruir a competição’ não é algo que eu faria se fosse ele.”

Höttges tentou acalmar os ânimos recorrendo ao Twitter. “[Aquela] declaração não foi ok! Desculpem! Escapou!”. Ainda assim, foi um exemplo clássico de como, na Europa, as ambições das empresas e a política doméstica podem frequentemente entrar em rota de colisão. Está armado o cenário para uma batalha pública entre duas forças das telecomunicações. Em disputa, está a conquista de um papel central no futuro do setor na Europa.

A Vodafone e a Deutsche Telekom são as duas empresas mais bem posicionadas para erguer uma rede pan-europeia capaz de igualar a escala das criadas por nomes como Verizon Wireless, AT&T, SoftBank e China Mobile. As duas, ao lado da Liberty Global, pertencente ao bilionário John Malone, estiveram entre as mais ativas na consolidação do mercado de telecomunicações europeu nos últimos dez anos, quando ganhou força a tendência de convergência – o oferecimento de serviços de banda larga, telefonia celular e TV paga pela mesma rede.

A Deutsche Telekom, dona da marca T-Mobile e maior operadora da região, tem uma rede que se estende da Holanda até a Grécia, passando pelo Leste Europeu e pela Europa Central. Também é a maior acionista da BT no Reino Unido, além de ser dona da terceira maior empresa de telefonia celular nos Estados Unidos.

A Vodafone, por sua vez, fortaleceu-se na Europa comprando redes a cabo na Espanha, Alemanha e Reino Unido. A compra da Unitymedia faria com que passasse a obter 40% de seu lucro na Alemanha. “O núcleo deste negócio é a Alemanha”, disse Dhananjay Mirchandani, analista do Bernstein e ex-gerente da Vodafone Alemanha.

Executivos de bancos de investimento especializados em telecomunicações apelidaram a possível aliança entre a Liberty Global, de Malone, e a Vodafone de “a mãe de todas a fusões”. Uma fusão total, porém, vem se mostrando complicada de negociar. Malone descreveu a situação como tentar tirar uma “grande banana” de dentro de uma jarra. Malone é conhecido por negociar com firmeza e as duas empresas nunca concordaram sobre o valor de seus ativos.

As negociações para uma troca de ativos em 2015 fracassaram, embora as empresas tenham conseguido assinar um negócio de fusão na Holanda. A transação foi vista por investidores e analistas como um teste para acordos futuros. Isso se comprovou em fevereiro, quando Vodafone e Liberty Global retomaram as negociações.

A opção de consolidação é vista como crucial para as grandes operadoras europeias, que nos últimos dez anos se viram às voltas para lidar com o declínio de fontes de receita lucrativas, como as mensagens de texto, as ligações por linhas fixas e o roaming. Isso foi resultado das regras rígidas adotadas pela Comissão Europeia e da emergência de empresas de tecnologia, como Facebook e Apple, que lançaram novas ferramentas de comunicação.

As operadoras de telecomunicações nos EUA, Japão e China estão sujeitas a uma regulamentação bem menos onerosa e gozam de bases de clientes muito maiores. Isso significa que têm margens de lucro maiores e podem justificar os enormes investimentos necessários para criar redes de 5G.

Segundo a Etno, associação setorial que representa as maiores empresas da região, o lucro das operadoras europeias representa apenas 11% do lucro de todas as operadoras no mundo. Em 2006, a proporção era de 36%. O lucro total das empresas do setor na Europa, que havia somado € 63 bilhões em 2006, caiu pela metade nos últimos dez anos.

Isso acendeu luzes de alerta no radar dos executivos do continente. O valor relativo das operadoras europeias é o menor em 15 anos e a luta para convencer os investidores a financiar novas redes de 5G e de banda larga, integralmente de fibras ópticas, tornou-se intensa.

O Vodafone não é o único grupo europeu interessado em aquisições. Entre outros exemplos, estão a compra da Jazztel, na Espanha, pela Orange; a da EE, no Reino Unido pela BT, por 12,5 bilhões de libras esterlinas (US$ 17,5 bilhões); a fusão entre a Tele2 e a Com Hem, na Suécia; e as compras da rede de telefonia celular da Tele2, na Holanda, e da rede a cabo austríaca da Liberty Global, ambas pela Deutsche Telekom.

Na fase atual, a maior preocupação dos acionistas da Vodafone não é se a aquisição vale a pena, mas quais seriam as condições do negócio. Acordar as condições apropriadas, contudo, é apenas uma das batalhas da Vodafone: a maior ameaça vem do campo político alemão.

A Deutsche Telekom deverá pressionar políticos alemães e o público contra o negócio.

A rede a cabo existente na Alemanha pertencia à Deutsche Telekom, mas a empresa foi obrigada a vendê-la há 25 anos, para restringir seu poder. A rede foi dividida e entregue a empresas regionais, que posteriormente foram sendo arrebanhadas por Malone pela Vodafone. Com uma fusão entre ambas, as operações voltariam a ficar unidas integralmente, mas agora sob propriedade da Vodafone.

A Alemanha tem uma lei singular chamada Nebenkostenprivileg, segundo a qual o dono de uma residência pode repassar ao inquilino a taxa de instalação e manutenção das linhas de TV a cabo, queira este ou não. A lei data dos anos 80, quando o então primeiro-ministro Helmut Kohl permitiu que eletricistas e empresas contratadas instalassem e fizessem a manutenção dos cabos nas casas das pessoas com os custos sendo passados para os inquilinos, se a propriedade estivesse alugada.

A Deutsche Telekom diz que está excluída do mercado de fornecimento de banda larga de alta velocidade porque grandes associações residenciais já têm contratos com as empresas regionais, nos quais elas são obrigadas a pagar pela instalação e manutenção. Dessa forma, essas associações não têm interesse em pagar por uma linha de banda larga separada – 11 milhões de residências estão nessa situação.

A Deutsche Telekom teme que Vodafone e Unitymedia combinadas possam dominar os mercados de TV paga e banda larga.

A Deutsche Telekom tem como aliada neste embate a espanhola Telefónica, que controla a maior rede de telefonia móvel da Alemanha sob a marca O2 e também teme o poder que a fusão daria à Vodafone, rival nas linhas celulares.

“Uma transação como essa geraria um monopólio na distribuição de conteúdo por cabo e, na prática, um duopólio na infraestrutura fixa na Alemanha”, diz o CEO da Telefónica, Markus Haas. Ele defende uma “análise profunda” pelas autoridades reguladoras, para que considerem o veto à fusão.

Outro campo de batalha é a definição do órgão regulador que avaliará a transação. Advogados consideram provável um veto, caso o negócio seja analisado na Alemanha. Como a aquisição inclui operações a cabo na Hungria, República Tcheca e Romênia, o caso pode ir Bruxelas, com chances de sinal verde. Mas, se Bruxelas der atenção aos alertas da Deutsche Telekom, futuras fusões de redes móveis e fixas seriam incertas e a perspectiva de se criar uma grande operadora perderia força.

Fonte: Valor Econômico

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