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Após tombo em maio, indústria fechará 2º tri com queda forte

O setor deve recompor apenas parcialmente as perdas em junho, o que levará a terminar o segundo trimestre com recuo de mais de 4%

Após o tombo de 10,9% na produção de maio, na comparação com abril, a indústria deve recompor apenas parcialmente as perdas em junho, o que fará o setor fechar o segundo trimestre com uma queda expressiva, de mais de 4%. Uma má notícia para quem já decepcionou ao ficar estável no primeiro trimestre na comparação com os últimos três meses do ano passado. A queda ainda fez a indústria voltar ao nível de produção em que rodava em agosto de 2003.

A produção foi afetada pela greve dos caminhoneiros, que durou 11 dias em maio e interrompeu tanto a chegada de insumos nas fábricas quanto o escoamento de mercadorias acabadas. Dos 805 produtos pesquisados pelo IBGE, dos 805 acompanhados pela Pesquisa Industrial Mensal (PIM), 561, ou 70% tiveram queda de produção. O recuo atingiu todas as categorias econômicas: duráveis (-27,4%), bens de capital (-18,3%), semi e não duráveis (-12,2%), e intermediários (-5,2%).

Na comparação com o mesmo período do ano passado, a produção industrial teve queda de 6,6%. No acumulado do ano, o crescimento de 4,5% até abril foi cortado em mais da metade, para 2% em maio. Em 12 meses, o acumulado recuou de 3,9% para 3%.

Os efeitos da paralisação dos caminhoneiros devem se estender para junho, já que o bloqueio das estradas afetou diferentes etapas e momentos da cadeia produtiva, afirma André Macedo, gerente da PIM. “Houve desabastecimento de matérias-primas, dificuldades de escoamento de produtos. Isso pode trazer algum reflexo negativo para os primeiros meses de junho se as cadeias produtivas permanecerem desarticuladas”, diz. E algumas fábricas liberaram funcionários para os jogos do Brasil na Copa, o que também pode influenciar o desempenho da produção.

Para o Santander, a indústria deve recuperar em junho em torno de 80% da produção, puxada pelo segmento de veículos. “Será uma devolução importante, mas não integral. Os poucos indicadores coincidentes disponíveis sinalizam aumento de 8% na produção do mês passado”, afirma Rodolfo Margato, economista da instituição. Ele ressalta que a projeção é preliminar. Se realizada, a produção industrial fecharia o segundo trimestre com uma queda expressiva de 4,1% sobre o primeiro, feito o ajuste sazonal.

Os dados da Anfavea (que reúne as montadoras de veículos) em junho, a serem divulgados hoje, devem vir positivos. “É um setor de bens estocáveis, não depende de insumos perecíveis. O setor de alimentos, por outro lado, deve devolver em menor escala as fortes perdas de maio”, afirma Margato.

Nas projeções do Itaú Unibanco, que prevê alta de 10,9% na produção industrial do mês passado, houve crescimento de 33,3% na fabricação de veículos no período, na comparação com maio, feito o ajuste sazonal, para 235,5 mil unidades. Ante o mesmo período do ano passado a alta seria de 11,3%. Este é um dos principais segmentos da indústria e, em maio, boa parte da queda de 10,9% se deve a ele, que recuou 29,8%.

Margato lembra que abril apontava para uma aceleração na atividade, que não teve continuidade por causa da greve. Se ali se esperava um crescimento de 0,8% no PIB, a projeção caiu agora para 0,2% no segundo trimestre. Ele avalia que a greve ainda vai afetar a economia no segundo semestre, pelo canal de confiança. “Já havia muita incerteza, que a greve potencializou”, diz.

Da mesma forma que no PIB, a estimativa para a produção industrial em 2018 caiu de 5% para 3,5%. “A projeção inicial estava longe de ser uma retomada vigorosa, mas a greve ‘contaminou’ as estimativas para o ano”, afirma o economista do Santander.

Macedo, do IBGE, diz que a queda do setor provocada pela paralisação dos caminhoneiros, embora tenha sido um evento pontual, tornou mais difícil analisar se a indústria permanece ou não em trajetória de recuperação, especialmente após um começo de ano mais lento.

No cálculo do banco UBS, o desempenho da indústria em maio deixou um carregamento estatístico em torno de -5% para o ano. Quer dizer que se a produção se mantiver no mesmo nível daquele mês, terminará 2018 com queda de quase 5%.

Já o MUFG Brasil estima que a produção industrial termine 2018 com alta de 2,3%, menos do que os 3% nos 12 meses encerrados em maio e também do que os 2,5% registrados em 2017.

A queda da indústria em maio foi muito forte também quando se toma uma perspectiva mais longa. De acordo com uma série histórica reunida e ajustada sazonalmente pelo UBS desde 1975, foi a quarta maior em 43 anos. Os três maiores tombos anteriores ocorreram em abril de 1990 (-20% ante março) devido ao Plano Collor; em maio de 1995 (-11%), resultado de uma greve de petroleiros; e dezembro de 2008 (-11%), efeito da crise econômica mundial, pós-quebra do banco Lehman Brothers.

Assim como outras instituições, o UBS estima uma recuperação parcial da produção da indústria em junho, com aumento de 7%. Tal projeção baseia-se em indicadores já conhecidos, como confiança, emplacamento de veículos e dias úteis, segundo os economistas Fabio Ramos e Tony Volpon em relatório.

Flavio Serrano, do banco Haitong, diz que, em junho, o setor virá com um número positivo, mas sua magnitude ainda é incerta. Agora que se sabe o tamanho do estrago que a paralisação dos caminhoneiros provocou na produção industrial de maio, o ponto mais importante é a velocidade com que o setor vai devolver as perdas em junho, diz. Essa velocidade permitirá tirar mais conclusões sobre o ritmo da atividade no país.

Fonte: Valor Econômico

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