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Abertura comercial adicionaria 1,5% ao crescimento anual, aponta FGV

Estudo mostra que somente a redução de alíquotas para importação de bens de capital e de informática proporcionar aumento extra de 0,5% ao ano no PIB


A abertura comercial do Brasil por meio de corte de tarifas de importação pode levar a um crescimento adicional de até 1,5% ao ano no País até 2030, de acordo com um estudo feito por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV). Para eles, uma mudança de visão em relação ao comércio exterior poderia desacelerar o aumento de salários nos setores atingidos, mas, por outro lado, aumentar a competitividade da indústria, o nível de produtividade e a economia como um todo.

O estudo foi apresentado ontem 05.11, em Brasília em um seminário promovido pela FGV e pelo Ministério da Fazenda em um momento em que representantes do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), já fizeram repetidas afirmações defendendo a abertura comercial. “O novo presidente parece ter essa intenção”, disse o secretário de Assuntos Internacionais da Fazenda, Marcello Estevão. Ele disse que a proposta de começar a abertura comercial por bens de capital e informática será apresentada à equipe de Bolsonaro durante as reuniões de transição.

O levantamento da FGV foi encomendado pela própria Fazenda e usou diferentes cenários. Um deles teve como base proposta enviada pela equipe econômica à Câmara de Comércio Exterior (Camex) para diminuir tarifas de importação sobre bens de capital e de informática. A sugestão foi inspirada na experiência de países que começaram o processo de abertura por esses segmentos. O Instituto de Pesquisa Econômicas Aplicadas (Ipea) fez simulações e chegou a resultados semelhantes, segundo Estevão. A conclusão é que só essa medida levaria a um impacto crescente ao longo dos anos que chegaria a 0,5% no PIB até 2030. Já a redução tarifária total sobre toda a importação brasileira poderia chegar, no mesmo período, ao 1,5% calculado.

Para Marcello Estevão, as razões para o nível de abertura atual do país parte de “uma ideologia de substituição de exportações”. Segundo ele, países da América Latina que mudaram essa visão são hoje mais produtivos e competitivos. “O Brasil foi país que mais cresceu no mundo até 1980, mas não era integrado. Depois de 1980, continuamos do mesmo jeito [sem abertura]. Aí vemos que o Brasil é um retardatário”, disse.

Apesar do discurso favorável a uma abertura, o secretário reconhece que há “preços” a serem pagos pelo país no processo. Um deles é que o salário no setor alvo das medidas tende a crescer menos do que em outras áreas. Mas, segundo ele, a medida ainda assim valeria, porque beneficiaria toda a economia. Ele diz que essa visão foi usada pela Fazenda em decisões recentes no governo. “Tem que levar em consideração a sociedade, ainda que um grupo específico perca”, disse.

Os pesquisadores sugeriram como um dos meios de se medir o grau de abertura comercial do país a divisão do montante total de exportações e importações pelo Produto Interno Bruto (PIB). A média dos países da América Latina e Caribe, por exemplo, é historicamente maior que a brasileira. Outro indicador observado é a tarifa de importação, que, segundo técnicos da Fazenda, é a quarta maior da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O professor Lucas Ferraz, da FGV, sugeriu que a participação da indústria nacional perdeu nas últimas décadas sua relevância no PIB para o setor de serviços, principalmente por estar perdendo competitividade no mundo. O enfraquecimento, segundo ele, vem sendo observado desde o fim da década de 1970, quando a globalização ganhou força e a China começou sua abertura comercial.

Em paralelo, o país não teria se “preparado” devidamente para o fenômeno. Entre as razões, estão a “obsessão” das autoridades por um saldo comercial positivo, com exportações tendo que ser mais fortes do que as importações, e a busca pelo “made in Brazil”.

Ele diz que isso pode parecer algo positivo, por gerar renda localmente, mas acaba por diminuir os volumes exportados. O professor acredita que uma economia mais integrada barateia a produção e faz o conceito de competitividade ser global, não local. “[Usar tarifas altas] é típico de um país que está preso no paradigma da substituição da importação. Isso não vale mais para o mundo”, disse.

Fonte: Valor Econômico

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